quinta-feira, 2 de julho de 2009

A PAREDE


Voltando de mais uma noite supostamente divertida, Goulart entra no seu carro e, ao fechar a porta o barulho da tranca o lembra de que ao voltar para casa terá que enfrentar novamente a Parede Vermelha. Implacável, imponente e insaciável, aquela parede é capaz de fazer Goulart perder a calma. Aquela parede tão forte o fazia sentir-se pequeno, frágil, como se a qualquer momento ela pudesse assumir a sua forma humana e lhe falar a verdade dos 30 anos em que presenciara todas as noites, o entra e sai de sua vida.
Aquela parede parecia saber exatamente tudo o que nem mesmo Goulart podia imaginar. Sabia qual a sua comida favorita, sua roupa e mesmo coisas da alma e isso era o que mais o assustava. Como podia aquela parede antes branca e esmaecida, passando-se quase desapercebida, a não ser por dividir a sala dos quartos, ao tornar-se vermelha, saber tanto ou mais d´alma de Goulart do que ele mesmo?
Goulart olhou para o lado e percebeu que estava envolto em fumaça, decidiu abrir a janela do seu carro. Pegou a chave e colocou na ignição. Bastou para a parede voltar. Vermelha, sempre ali depois da porta do hall de elevadores, que também possui suas paredes, mas que nem de perto o assustavam. A Parede Vermelha sim, sempre ali, encarando e ameaçando. Imaginava que a parede ia lhe contar tudo sobre aquelas noites que, bêbado, eram para ficar no esquecimento alcoólico. Mas não, ele tinha certeza de que ela lembrava e certamente o lembraria.
Virou a chave do carro e o motor, cof cof, engasgou, tentou mais uma vez e partiu em direção de casa. No caminho seus pensamentos tentavam fugir, mas até mesmo o sinal de trânsito fechado remetia suas lembranças imediatamente àquela parede. Tentava, a todo custo se concentrar apenas em dirigir seu carro, mas era difícil. Na madrugada não se têm tantas coisas na rua para tirar sua atenção, distraindo o pensamento.
Goulart resolveu então acelerar e encarar de uma vez seu destino. Embicou seu carro na porta da garagem e, afoito por terminar logo com aquela expectativa, buzinou. O porteiro abriu as portas, ele acelerou e deixou o carro no meio da garagem. Subiu pelas escadas correndo, tirando a chave de casa do bolso, acertou o buraco de primeira e abriu a porta. Entrou em casa ofegante e sentou-se na poltrona de frente para ela. Enorme, parecia ainda maior com os reflexos avermelhados do raiar do dia, ele tapou os ouvidos com as duas mãos em um ato reflexo, e ao se dar conta daquela situação acreditou que aquela parede nada mais tinha a lhe dizer. O simples fato de ela existir era a maior prova do que eles realmente viveram. A Parede Vermelha ainda lhe parecia implacável, imponente e insaciável, mas agora ele sabia que era exatamente o que ele queria. Não mais se sentiu incapaz de viver com ela, tão pouco se sentia frágil. Ao contrário sentiu que havia ali uma perfeita harmonia. Seu desejo de escola, aquele da época em que descobrimos o que realmente nos agrada, finalmente estava ali na sua frente, inteiro naquela parede. Arrepiou-se!!!
Como podia uma parede despertar nele tantos sentimentos? Goulart recostou-se no sofá e ficou ali admirando aquele momento em que finalmente ele e a parede pareciam começar a se entender.
Percebeu que a parede poderia ser sua maior aliada na concretização de seus sonhos e planos de vida feliz. Implacável, imponente e insaciável e agora principalmente adorável, ela seria capaz. Não podia acreditar que lavara tanto tempo para encontrar o significado que aquela, antes esbranquiçada e esmaecida parede, pôde lhe trazer ao tornar-se vermelha. E agora Goulart está ali, de frente para ela, banhado de um sentimento de perda pelo tempo em que se manteve longe, alheio por medo, daquela Parede Vermelha, mas com a certeza de que agora, com a nova oportunidade, poderá se tornar tão importante para ela como ele descobriu ser ela para ele.
Goulart então se levantou e, pela primeira vez desde que a reforma que tornara aquela Parede Vermelha terminara definitivamente, sentiu-se inteiro. Súbito percebeu o quanto seus sentimentos andavam confusos até aquele mágico momento. Extasiado nem se deu conta que na verdade aquela parede estava sim querendo lhe dizer algo muito importante. E quando sentou na grande “Chaise Long”, recostando-se nela, sentiu que ela lhe chamava. Ao voltar o olhar em sua direção percebeu então que ainda faltava o principal para completar aquele momento. A parede na verdade estava lhe dizendo o quanto eles precisavam da sua companheira, que conheceram ainda na escola, quando descobrimos o que gostamos, e que desde então só voltou a vê-la 20 anos depois, exatamente quando ela transformou a parede, antes branca e esmaecida, naquela Parede Vermelha.
Era tão claro quanto a agora já forte luz do Sol, que entrava por entre a folhagem das árvores, filtrada pelo verde de suas folhas, iluminando de formas sombreadas seu vermelho intenso. Era ela a quem queria ao seu lado, para poderem, juntos, suavizar a presença intensa de uma parede forte, mas incompleta na falta da suavidade que dela viria. Ele não podia mais esperar, tinha que encontrar a resposta para trazê-la de volta ao seu lado, a menina do colégio, dos sonhos de vida feliz, capaz de lhe proporcionar, isso ele sabia com certeza, a felicidade de estar completo, ele, a sua querida e a Parede Vermelha, ao fundo, para uma última vez presenciar quem por fim na sua vida permanecia.
Imperioso era encontrar a maneira certa de mostrar a ela o quanto ela a ele queria. Goulart, que ela já sabia, viria a se tornar seu homem, em quem ela se apoiaria, confiaria e ainda mais, tudo aquilo mais que ela queria, na medida certa da sua vida.
Percebeu a garganta fechar, arranhar a língua de uma maneira que ele nunca imaginara. Como podia, a garganta e a língua travarem um duelo tão intenso pela saliva, a ponto de na língua ..... parou, pensou e percebeu que ele tinha era sede depois de uma alvorada tão maluca. Levantou e foi pegar um copo de água na geladeira. Suas cadelas, percebendo que ele finalmente estava ali, mesmo, levantaram e pediram a ração da manhã. Goulart bebeu a água e serviu um outro copo que levou consigo para a Parede Vermelha. Sentou e colocou o copo na mesinha ao lado de sua grande “Chaise Long”. Percebeu que a sua idéia de trazer um copo de água para a parede não fazia muito sentido, mas não ligou muito e voltou a se concentrar em seu atual dilema. Na verdade ela deveria saber. Ao ser sincera saberia que ele era também, assim como ela, seu projeto feliz para uma vida. E se ela quisesse seria sim, feliz, muito feliz ao lado dele e da Parede Vermelha, que não estaria tão vazia, pois cheia de maravilhas detalhadas em harmonia, linda, perfeita.
Goulart percebeu que deveria era gritar, mesmo, até perder a voz, gritar a dizer o quanto quer completar sua vida com ela, o quanto é importante preservar o sentimento que existe entre aqueles que se desejam desde tempos em que nem mesmo imaginavam que era esse o desejo. Vermelho. Só veio a se realizar depois, bem depois, no dia que eles sabiam ao se reencontrar, que o desejo passado, no presente se oferecia de uma maneira convidativa, um conto de amor que se realizava, feito de um roteiro em que, perfeito, tudo mesmo estava, a não ser pela falta que nesse momento, fazia sentir-se na ausência da atriz principal, a musa divina, ela, por quem essas páginas estão escritas. Roteiro de vida feliz que agora encontra seu momento mais decisivo, aquele onde eles, que já sabem que são capazes de dividir, resolvem unir, juntar seus trapinhos e juntos, eles e a parede, seguir em frente felizes.
A garganta seca novamente. Talvez a idéia de trazer o copo de água para a parede não tenha sido tão improdutiva. Como fazer? Como juntar os trapinhos? Ele levanta, um pouco cambaleante pelo cansaço que já começa a chegar. Sente um incômodo na região da bexiga que a princípio ele julga ser apenas o tal do friozinho na barriga, aquele de momentos decisivos, mas ao dar os primeiros passos, resolve correr, direto e rápido, para o corredor, na primeira porta à esquerda. Ufa!!! Que alívio. Ao sair do banheiro e voltar para a sala ele percebe que já são dez horas da manhã de um belo domingo, com sol. A coragem vem, ele pega o telefone e disca.... tuuu .... tuuu .... (hoje em dia os telefones não fazem mais trim... trim...) tuuu .... tuuu .... – Alô – Alô – olha, é o seguinte, eu não consigo mais viver sob as constantes ameaças que me tem sido feitas por essa Parede Vermelha !!!! – Alô ??!!! – É isso mesmo, ela não para de me lembrar o quanto você é implacável, imponente e insaciável!!! Alô, não to entendendo !!! Goulart é você? O que você está dizendo? A parede ta falando que eu sou implacável? Que isso? – Você não está entendendo? Bem, acho que deveríamos nos encontrar, assim posso te explicar o que está acontecendo. – Goulart, eu queria ir a praia, beber uma cervejinha e tirar essa cor de dia de semana, .. – Passo aí daqui a quarenta minutos, te ligo quando estiver chegando, beijo.... – Doido ..... Beijo .....
Ao sair, ele percebe a Parede Vermelha brilhando, como querendo mostrar o quanto ela estava ansiosa em rever sua dona.
Passadas várias horas as cadelas começam a latir, ouviram o barulho do elevador chegando ao segundo andar e a chave abrindo a porta. Elas ficam eufóricas, latem muito. A parede não agüenta mais de ansiedade, tenta mesmo sair um pouco de si para olhar o que estava acontecendo. A porta se fecha e as cadelas entram. Quando Goulart aparece a parede está mesmo a tremer, não pode suportar nem mais um minuto sem saber se ela estava ali..... se havia dado certo seu plano. Então, por traz da paredinha do pequeno hall de entrada ela aparece, linda como sempre. Goulart não cabia em si, a felicidade que sentia só poderia ser comparada ao que ele antes apenas pôde imaginar, em nenhum momento de sua vida até ali ele havia sentido tamanha alegria. Eles então se olharam e entenderam que juntos podiam fazer nesse instante aquilo que fosse, qualquer coisa mesmo, pois juntos eles eram, como a Parede Vermelha dizia; Implacáveis, Imponentes e Insaciáveis.

Fim

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